Uma dúvida fundada é muitas vezes a mãe de uma boa resposta. Não é o caso. O tabu acerca da continuação de Jesualdo Ferreira no FC Porto, gerido pelo clube e alimentado pela comunicação social e pelas conversas de café, adensou o romance de um caso que, no fundo, até já é de paixão: como nunca acontecera antes, Jesualdo faz hoje o pleno das opiniões e dos afectos entre a comunidade portista. Em boa verdade, para além dos bons resultados, foram as dúvidas que muitos alimentaram sobre os laços de afectividade entre treinador e adeptos durante os dois primeiros anos - numa espécie de período experimental alargado - que criaram as condições para que, este ano, Jesualdo seja amado e justamente incontestado. Basta atentar à história. Mesmo entre os treinadores mais vitoriosos, nunca nenhum treinador do FC Porto saiu do clube no momento em que desfrutava da unanimidade e do pico da empatia. Porque haveria então Jesualdo de sair a qualquer preço?
O argumento mais usado para adensar as dúvidas sobre a sua continuidade, prende-se com o facto de o FC Porto nunca ter mantido o mesmo treinador por mais de três anos consecutivos. Sendo um facto histórico, acredito que desta vez Pinto da Costa queira pagar o preço de uma excepção. Jesualdo Ferreira respeitou, recapturou e renovou o espírito e a matriz do FC Porto após os desvarios de um holandês que pôs a equipa e os nervos dos adeptos a flutuar experimentalmente entre os canais de Amesterdão, deu o peito às balas na defesa do clube num triénio com um contexto particularmente delicado, afirmou a lógica de que não há crescimento sem racionalidade e trabalho sério. Com audácia, fez em três anos muito mais que o seu tri pessoal e o tetra do clube. Este ano, após ter formado uma equipa e ao acabar a época em crescendo, sente-se que o seu ciclo não terminou. O FC Porto deve ousar a audácia desta excepção. A excepção do momento.
Ao contrário dos seus mais directos rivais, o FC Porto respira paz e visão. O Benfica está (como habitualmente) em pleno processo de demolição. O Sporting entrou num processo de recomposição cujo fim não de adivinha pacífico. Ao arrepio da agitação dos adversários, no FC Porto os Messias podem esperar. O grande desígnio para a próxima época será o de renovar a ambição e fazer crescer uma equipa de referência, mesmo sabendo que, à luz das mais recentes conquistas, será quase impossível fazer melhor. No contexto internacional, com o prestígio desportivo do futebol português esticado aos limites pela competência do FC Porto e tristemente encostado às cordas por Benfica e Sporting, dificilmente se poderá ambicionar mais do que o chavão de "ir o mais longe possível". Internamente, sente-se que muitas forças estarão mobilizadas para colocarem o FC Porto longe do Penta. E é também por isso que havendo excepções, há coisas que nunca mudam: o azedume dos que lutam contra o FC Porto e a ambição que molda as vitórias azuis e brancas. O preço a pagar. Num clube com altos padrões de exigência e de qualidade, esse será o preço da Excepção. A de sempre.
in "Conversas do Tetra" MIGUEL GUEDES , jornal "O Jogo"
quarta-feira, 27 de maio de 2009
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